A bike seria um ótimo meio de transporte se houvesse educação no trânsito - Foto: Reprodução

A bike seria um ótimo meio de transporte se houvesse educação no trânsito – Foto: Reprodução

São Paulo está vivendo um movimento em prol do uso da bicicleta. A iniciativa é extraordinária não fosse o risco que representa não pelo veículo, que proporciona ao mesmo tempo exercício físico e mobilidade limpa, mas pela falta de sintonia fina entre os demais condutores. A prefeitura disponibiliza aos finais de semana, no horário entre 7 horas e 16 horas, uma ciclovia montada pelo CET (Centro de Engenharia de Tráfego) destinada ao lazer. Até aí tudo ótimo, tudo muito organizado e quase todos os ciclistas cumprem as regras. Porém, no dia a dia a situação se complica e o saldo de acidentes é tão assustador quanto os envolvendo motocicletas. A capital registra ao menos duas mortes de motociclistas por dia fora aqueles que ficam com sequelas de incidentes pelo resto da vida. É inevitável perguntar, portanto: será que a cidade está preparada para conviver harmoniosamente com tantos tipos de transportes?

 

 

O ciclista, sem dúvida, vai mais rápido em meio ao congestionamento - congestionamento -_Foto_J.F. Diorio

O ciclista, sem dúvida, vai mais rápido em meio ao congestionamento – congestionamento -_Foto_J.F. Diorio

Pela capital paulista transita uma frota de sete milhões de carros, 34 mil táxis (fora os clandestinos), 15 mil ônibus e quase um milhão de motocicletas, segundo dados do Renavam (Registro Nacional de Veículos Automotores) e Detran-SP (Departamento de Trânsito do Estado de São Paulo), além de 500 mil bicicletas (dados da Abraciclo – Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares). O uso mais intenso de bicicletas é uma vitória das várias associações de ciclistas, o uso de bicicletas, veículo ecologicamente correto, no entanto, deve ser comemorada com ressalvas. O motorista brasileiro padece de educação no trânsito e quando está diante do volante age, por vezes, como se fosse o dono do mundo. O mesmo comportamento é observado entre motociclistas.

 

 

Se para motoboy e mototaxistas o risco de acidente é grande, para o ciclista é enorme - Foto: Reprodução

Se para motoboys e mototaxistas o risco de acidente é grande, para o ciclista é enorme – Foto: Reprodução

Motoristas e motociclistas ainda não entraram em harmonia com ciclistas e, fatalmente, o número de acidentes registrados assusta. Motivados pelas campanhas, os ciclistas, em tese, abandonaram o precário transporte coletivo, deixaram carros na garagem para não enfrentarem o sempre caótico trânsito. De acordo com a Abraciclo, o número de vendas de bicicletas registrou um incremento de 88%, de 1997 a 2007, e chegou a 500 mil, em 2010, o que respalda a ideia de quanto maior o número bicicletas em circulação maior, também, os registros de acidentes que as envolve. Pela Contran (Conselho Nacional de Trânsito), os condutores devem manter uma distância de 1,5 metro do ciclista, mas quem consegue calcular tal faixa de segurança enquanto dirige?

 

 

Serviço de Bike-Courier é mais barato que de um motoboy, mas é indicado para curtas distâncias - Foto: Reprodução

Serviço de Bike-Courier é mais barato que de um motoboy, mas é indicado para curtas distâncias – Foto: Reprodução

Pesquisa recente do Metrô, de 2010, indica que 70% dos ciclistas usam a bicicleta para trabalhar, considerando transporte de um ponto a outro, serviços de bike courier (entregas feitas com bicicleta), entre outros, e cresce para 96% quando se considera os que vão às compras, à escola ou outra atividade definida, e apenas 4% pedalam por lazer ou recreação. A cidade aparece na liderança de atendimentos, em pesquisa do Banco de Dados do Sistema Único de Saúde (SUS). De 2008 a 2012 foram 16.308 atendimentos e 413 mortes.

 

 

Marcos Cintra: São Paulo perde R$ 50 bilhões por ano nos congestionamentos - Foto: Reprodução

Marcos Cintra: São Paulo perde R$ 50 bilhões por ano nos congestionamentos – Foto: Reprodução

No vermelho – Os prejuízos com os congestionamentos na capital paulista têm praticamente dobrado a cada quatro anos, como mostra levantamento da FGV (Fundação Getúlio Vargas). Dados apurados pelo economista Marcos Cintra, vice-presidente da FGV-SP, em 2012, apontavam que as perdas passavam dos R$ 50 bilhões a cidade perde, ou deixa de ganhar, por ano. Tudo por culpa dos congestionamentos.

 

 

O valor é maior que o orçamento da Prefeitura de São Paulo para 2013, de R$ 42 bilhões. Somente o governo do Estado e o federal têm orçamentos maiores que o da capital paulista. “É um aumento muito significativo desse custo no período. E não tem nada artificial que tenha colaborado, é o crescimento vegetativo dos problemas de trânsito”, diz Cintra.

 

 

Transporte público precário incentiva o uso de carros, motos e bicicletas - Foto: Antônio Milena/AE

Transporte público precário incentiva o uso de carros, motos e bicicletas – Foto: Antônio Milena/AE

Entra no cálculo o custo do tempo perdido nos congestionamentos, em horas de trabalho ou de lazer. Ainda são incluídos perdas com combustíveis no congestionamento, gastos com saúde por causa da poluição e até as horas perdidas pelos indivíduos. Mas desse total 75% correspondem a riquezas que deixam de ser produzidas enquanto a fila não anda. Em 2008, iam para o ralo, segundo o cálculo, R$ 33 bilhões – ante R$ 14 bilhões em 2004. É o que se convencionou chamar de Custo São Paulo.

 

Segundo Cintra, os fatores mais preponderantes para o aumento desse custo nos últimos quatro anos são o aumento da frota e a queda na velocidade média. São Paulo combina uma frota de mais de 7 milhões de veículos e um serviço deficiente de transporte público. Todos esses fatores citados pelo economista corroboram, teoricamente, para o uso de bicicletas. Entretanto, fora os dados econômicos, São Paulo tem uma geografia irregular. Para enfrentar subidas e desviar de buracos, o ciclista conta unicamente com a força motriz gerada por suas pernas, além de observar os demais veículos com os quais divide as vias, as quais, cá entre nós, estão em péssimas condições de uso. Ou seja, o tempo de reação de direção defensiva e um acidente é ínfimo, e quem leva a pior é a parte mais frágil, no caso, quem não tem lataria e outros dispositivos de segurança (airbags e cintos de segurança, por exemplo), como motociclistas e ciclistas.

 

Segundo o doutor Romano José Sacarpitta, médico titular do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Medicina da USP (DOT), do Hospital das Clínicas, a média de óbitos registrados é de 1,2 pessoas por dia e um sem-número de pacientes hospitalizados com fraturas diversas, mas em maior número nas pernas e nos braços e cabeça. Sacarpitta afirma que a falta de educação no trânsito e irresponsabilidade de quem está no volante e guidão. “Faltam campanhas educativas e melhor preparação de condutores. O trânsito caótico, álcool e despreparo dos condutores contribuem para o aumento do número de acidentes fatais e vítimas com sequelas graves”, conclui.

 

 

Compreender que se a moto tem motor para movê-la, na bike a força motriz são as pernas do ciclista e em caso de acidente o prejuízo é sempre maior - Foto: Reprodução

É nesse tumulto motorizado que ciclista se coloca - Foto: Reprodução

A preocupação do médico está respaldada em números. Matéria publicada no Diário Oficial do Estado de São Paulo (DOE-SP), em junho de 2012, aponta que deram entrada no Grupo de Trauma do HC 66 ciclistas acidentados no trânsito oito dos quais necessitaram de internação para tratamento de fratura. Em 2011 houve um decréscimo e o número caiu para 58 pacientes e dez internações. De janeiro a junho de 2012, nove internações. O ciclista precisa, portanto, respeitar as leis de trânsito, o que nem sempre acontece.

 

O CET sugere que o biker não trafegue em vias expressas e rodovias, que é proibido por lei, e nas avenidas, apesar de permitido, oferece mais riscos ao ciclista. Não trafegar em calçadas, que é de uso privativo de pedestres, exceto se houver permissão do órgão de trânsito e o local estiver sinalizado. O uso de equipamentos de segurança, tais com capacete e refletivos nos pedais, dianteira e traseira da bicicleta, além de roupas claras para facilitar a visibilidade por parte dos motoristas e motociclistas.

 

 

Ciclista deve respeitar as leis de trânsito. O da foto não está nem aí - Foto: Samir Baptista/Terra

Ciclista deve respeitar as leis de trânsito. O da foto não está nem aí – Foto: Samir Baptista/Terra

Ao ciclista é permitido trafegar no corredor formado entre os carros e a borda da pista, mas é preciso ter em mente que tal pratica aumenta o risco de acidentes, observando sempre que caso não vá fazer conversão é necessário, por medida de segurança, sinalizar, evitando assim ser abalroado por outro veículo de maior porte. Por fim, o CET afirma que é imprescindível que o ciclista se posicione à frente dos carros parados no semáforo para garantir seu espaço na pista, mas sem esquecer que a bicicleta é considerada veículo não motorizado e nem por isso o ciclista deve desrespeitar a sinalização da via.

 

 

Ciclovia é alternativa ideal para o uso correto da bike - Foto: Milton Jung/CBNSP

Ciclovia é alternativa ideal para o uso correto da bike – Foto: Milton Jung/CBNSP

Ciclofaixas – Atualmente, a CET prepara a licitação para a contratação de um projeto para a implantação das três ciclovias em regiões distantes do centro da capital paulista, num total de 55 km de percurso. Serão 26 km de infraestrutura cicloviária no Jardim Helena, na zona Leste; outro circuito no Jardim Brasil, na zona Norte, com 17 km de extensão; e o terceiro trecho será o circuito Grajaú/Cocaia, na zona Sul, que terá 12 km, sendo 5 km de ciclovia e 7 km de ciclofaixa. A companhia afirma que esses locais foram definidos com base em uma pesquisa que indica o maior nível de utilização da bicicleta como meio de transporte. No entanto, ainda não há previsão para que as ciclovias entrem em funcionamento. Isto é, se saírem do papel.

 

 

Para Marcos Mazzaron, faltam política pública de incentivo ao uso da bike - Foto: Reprodução

Para Marcos Mazzaron, faltam política pública de incentivo ao uso da bike – Foto: Reprodução

O diretor da Federação Paulista de Ciclismo (FPC) acredita que ainda faltam políticas públicas para incentivar o uso de bicicleta como meio de transporte. Para ele, a construção de mais ciclovias interligando pontos da cidade é um incentivo. A extensão das ciclovias na capital paulista é considerado abaixo do ideal, diz ele. E é. A ciclofaixa, é bom lembrar, não pode interferir no fluxo de veículos pelas ruas e deve ser instalada de forma a garantir segurança ao ciclista.

 

“Em vários países da Europa, o uso de bicicletas é cada vez mais frequente e é superincentivado por empresas privadas. As pessoas utilizam a bicicleta para ir ao trabalho, fazer compras. A opção por esse transporte tem se tornado uma tendência mundial”. Mazzeron lembra, no entanto, que Sorocaba, no interior paulista, é referência, com pelo menos 85 km de ciclovias e sistemas para utilização de bicicletas. Mazzeron, evidentemente, defende o grupo que encabeça, mas não citou que as leis de trânsito são mais rígidas que no Brasil e que a capital apresenta um índice de sinistralidade infinitamente maior que uma cidade do interior. Sem falar que motoristas e motociclistas não respeitam sequer a faixa destinada aos ônibus. É briga de foice!

 

Segundo ele, além da recém-inaugurada ciclovia da zona leste, que facilita o transporte de funcionários de empresas da região, a construção de ciclofaixas de lazer (que funcionam apenas nos finais de semana) “ambientou” o paulistano à utilização desse meio de transporte. “Se você perguntar para cem pessoas, 90 vão saber o que são as ciclofaixas. É uma ação de lazer, que transformou esse sistema em um grande parque linear”.

 

 

Motorista usa ciclovia de Moema de estacionamento - Foto: Reprodução

Motorista usa ciclovia de Moema de estacionamento – Foto: Reprodução

Entretanto, saber não é necessariamente respeitar, caso contrário o cidadão-ciclista não sofreria acidentes, como o do ciclista David Santos de Moura, de 23 anos, que teve o braço amputado após ser abalroado pelo um carro de Alex Siwek, de 22 anos, na avenida Paulista, às 5,50hs. O braço de Moura foi jogado no rio. Bizarrice à parte, houve imprudência do ciclista, já que no momento do acidente, a faixa exclusiva no local ainda não estava em funcionamento, apesar de alguns cones já estarem no local para iniciar a separação entre carros e bicicletas. A faixa de lazer funciona aos domingos das 7 às 20 horas.

 

Atualmente, de acordo com a CET, a capital paulista tem 30 km de ciclofaixas, ligando o Parque das Bicicletas aos parques do Ibirapuera, do Povo e Villa-Lobos. A ciclofaixa funciona aos domingos, das 7h às 14h, e conta com monitores para orientação de usuários. Só que quando não tem monitores abusos são cometidos não apenas por ciclistas, mas também por skatistas e patinadores, que pegaram o vácuo das bikes e expõem suas vidas em nome da adrenalina. Está em dúvida? Desça o chamado “baixo Augusta”, sentido Centro e confira com seus próprios olhos.